Doutora Marta Mesquita
Crianças em casa? Cinco dicas para manter o bem-estar dos mais pequenos
April 28, 2020
Mulher grávida
5 Dicas para as futuras mamãs
May 1, 2020

Diversificação Alimentar

Doutora Marta Mesquita
 
Sob o conhecimento atual acerca da programação metabólica, reconhece-se a importância da alimentação da criança nos primeiros 1000 dias (desde a conceção até aos dois anos de vida) e o seu impacto na saúde futura. Assim, é indispensável conhecer as necessidades nutricionais do lactente e a forma de as colmatar através da introdução de novos alimentos à sua dieta.


0-6 meses: leite materno e/ou leite de fórmula


As recomendações das sociedades internacionais, nomeadamente da Organização Mundial da Saúde, são a amamentação exclusiva nos primeiros seis meses e a sua manutenção, sempre que possível, até aos dois anos de vida e durante a introdução de novos alimentos na dieta do bebé. Sempre que o leite materno é insuficiente, em alternativa ou de forma suplementar, está recomendada a utilização de fórmulas infantis de composição nutricional aproximada à do leite materno, mantendo a alimentação exclusivamente láctea nos primeiros 6 meses de vida.


Diversificação alimentar

Depois dos 6 meses de idade, as necessidades energéticas e nutricionais (ferro, zinco, vitaminas do complexo B entre outros) para o crescimento somático e desenvolvimento psicomotor do bebé não são supridas pela alimentação exclusivamente láctea pelo que é necessária a introdução de novos alimentos na dieta do bebé, ou seja, a diversificação alimentar. Esta deve iniciar-se entre os 4 a 6 meses e estar completa até aos 12-24 meses, devendo respeitar para além das necessidades nutricionais, as capacidades motoras e de desenvolvimento do bebé, bem como fatores socioeconómicos da família.
 
Assim, a idade de início e o tipo de alimentos deverão ser individualizados e poderão não ser rígidos, mas deve assegurar-se que:

• São oferecidos apenas alimentos que integram a roda dos alimentos;
• Os alimentos são introduzidos em pequenas quantidades, com aumento gradual da quantidade de acordo com a tolerância;
• Existe um intervalo de 3-5 dias entre a introdução de cada alimento novo;
• Cada refeição introduzida (sopa ou papa) substitui uma refeição láctea;
• Após os 6 meses, a ingestão de produtos lácteos não ultrapassa o equivalente a 500-700 ml de leite;
• Oferece água várias vezes ao dia, garantindo a hidratação do bebé;
• Existe um aumento progressivo da textura e heterogeneidade dos alimentos até à introdução na dieta familiar;
• Não devem ser oferecidos alimentos processados (bolachas) nem com adição de açúcar (sumos, sobremesas, bolos, doces) ou sal (enchidos, enlatados); estão ainda proibidos no primeiro ano de vida, o leite de vaca, o mel e chás.


6-9 meses: Primeiros alimentos


Hortofrutícolas

Qualquer alimento pode ser introduzido na dieta alimentar do lactente após os seis meses de idade (exceto os alimentos proibidos anteriormente referidos). Contudo, tendo em conta o padrão de crescimento que se pretende no primeiro ano de vida e as preferências alimentares inatas ao ser humano (gosto pelo doce, aversão ao amargo), recomendo que os primeiros alimentos a introduzir sejam os hortofrutícolas sob a forma de caldo ou puré.


Primeira sopa

A primeira sopa do bebé deve ser o mais simples possível com apenas três a cinco legumes, representativos dos diferentes grupos:

• “base/brancos”: batata ou batata doce, chuchu, curgete, beringela ou couve-flor;
• “laranja/ fornecedores de betacarotenos”: cenoura ou abóbora;
• “verde/folhas”: alface, brócolo, couve coração, couve penca, feijão verde;
• “antioxidantes”: cebola, alho ou alho-francês.

Assim pode começar, por exemplo, por uma sopa de batata, cenoura, alface e cebola. Coza os legumes e reduza-os a puré. A quantidade a oferecer são cerca de 150-180 ml, aos quais deve adicionar uma colher de sopa de azeite cru (5-7,5 ml).
Vá oferecendo novos legumes a cada 3-5 dias, variando e experimentando novas combinações de sabores!


Fruta

A fruta poderá ser introduzida crua ou cozida (preferencialmente crua para não se perderem algumas vitaminas com o calor), sob a forma de puré ou ralada, mas sempre individualmente para treino de paladar. Importa, no entanto, referir que a fruta deve ser oferecida como sobremesa após a sopa, não devendo constituir uma refeição ou merenda e que não devem ser excedidas 1- 2 peças de fruta por dia.
 
Comece preferencialmente pela fruta da época (maçã, pera, banana) e vá variando (cores diferentes). Após tolerância, experimente outras frutas, incluindo as frutas tropicais. Tenha apenas atenção que os frutos vermelhos, o maracujá, o ananás e o kiwi são libertadores de histamina e potencialmente mais alergénicos, pelo que, devem ser introduzidos mais tarde, sobretudo na presença de história pessoal ou familiar de atopia.


Cereais

Os cereais são introduzidos na alimentação do bebé através das papas. Existem dois tipos de papa: papas não lácteas que se preparam com o leite que o bebé toma (pode ser leite materno) e papas lácteas que se preparam com água.
Após os 4-6 meses (a até aos 7 meses) deve oferecer papas de todo o tipo de cereais, incluindo cereais com glúten. Cada refeição deve conter cerca de 150 ml de água/leite que terá de ser misturada com a farinha (conforme as instruções da embalagem), até obter um puré. O bebé só deve comer uma papa por dia!
Preferencialmente opte por papas comercializadas uma vez que são suplementadas, de acordo com as recomendações internacionais, com oligoelementos e minerais importantes nesta fase de crescimento. Esporadicamente pode oferecer papas caseiras.


Proteína animal (não láctea): carne e peixe

Reconhece-se que as reservas de ferro do lactente diminuem entre os 4-6 meses de vida e que o leite materno não é suficiente para suprir essa necessidade pelo que a proteína animal (não láctea) deve ser introduzida aos seis meses, constituindo uma fonte importante de ferro hémico.
Assim, a partir do 6º mês devem ser adicionados ao creme de legumes 30 g/dia de carne ou de peixe magros (peso considerado para o alimento cru e limpo de gordura) desfiados ou triturados, de forma a oferecer 4 vezes por semana carne e 3 vezes por semana peixe.
Tradicionalmente inicia-se a introdução com carnes de aves (frango, peru, avestruz) ou de coelho, menos ricas em ferro mas com menor teor de gordura saturada (e por isso melhor toleradas). Após a tolerância destas, pode oferecer as carnes vermelhas como borrego e vaca, e por último o porco.
Relativamente ao peixe, opte por peixes magros como pescada, solha, maruca, faneca ou o linguado. Os peixes mais gordos como a sardinha, a cavala e o salmão dê mais tarde e em menor quantidade, pela sua difícil digestão.
Após os 7 meses, o bebé pode fazer duas sopas por dia (almoço e jantar), e neste caso a proteína animal pode ser oferecida numa refeição ou repartida pelas duas (15 + 15 g). Alternativamente, a carne e o peixe podem ser adicionados a açorda, farinha de pau, arroz, massa ou cuscuz.


Após os 9 meses


Proteína animal (não láctea): ovo

Em substituição da carne ou do peixe, deve adicionar a gema do ovo ao creme de legumes. Esta deve oferecer-se de forma gradual, verificando a tolerância do bebé. Só deve ser consumida uma gema por refeição e no máximo 2 a 3 vezes por semana. Após os 11 meses pode introduzir a clara de ovo de forma semelhante.
 

Outras fontes de proteínas vegetal: leguminosas

As leguminosas são fonte de proteína vegetal e fibras, podem ser introduzidas em pequenas quantidades, bem demolhadas ou na forma germinada e sem casca. Pode iniciar com lentilhas, feijão frade, branco ou preto. Progressivamente, podem ser incluídas as restantes.

Durante este período está indicada a suplementação com vitamina D a todos os bebés, que se deve iniciar após a primeira semana de vida e manter, pelo menos, até aos 12 meses.
Após a diversificação alimentar e os 12 meses, a criança estará pronta para integrar a dieta familiar, reforçando ou implementando hábitos alimentares saudáveis.
 

Conheça os outros temas abordados pela Dra BabyLoop!

Marta Mesquita

A Doutora Marta Mesquita é formada em Medicina pela Universidade de Coimbra, sendo especializada em Pediatria Médica. Atualmente, exerce funções no Centro Hospitalar do Baixo Vouga.