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Porque deve evitar os andarilhos?

Doutora Marta Mesquita
 
Os andarilhos (“andadores”, “voadores” ou “aranhas”) são aparelhos/utensílios muito populares entre a maioria dos pais, associados a uma falsa crença de estimulação do desenvolvimento psicomotor das crianças através do incentivo ao início precoce da marcha. Contudo, os andarilhos são verdadeiros sarilhos! .


O que é e como funciona

O andarilho é um utensilio de puericultura constituído por uma estrutura rígida com rodas, composta por um assento suspenso, no qual os bebés se posicionam de pé, assentando e impulsionando os pés no chão, deslocando-se livre e independentemente, sem o apoio dos pais.

Este aparelho é usado em crianças entre os 6 meses e os 15 meses de idade, com intuito dos pais de manter a criança entretida, incentivar a sua mobilidade, promover a marcha, e por vezes até para a manter segura durante a alimentação. Contudo, cria uma falsa crença de segurança aos pais, que “descansam” enquanto se dedicam a outras tarefas domésticas, ocorrendo múltiplos acidentes.


Risco associados: acidentes

Os andarilhos podem atingir velocidades de um metro por segundo, permitindo que a criança se desloque rapidamente numa divisão, sem resposta dos pais em tempo útil. Por outro lado, na posição de pé a criança fica mais alta possibilitando que esta tenha acesso a locais habitualmente interditos e indisponíveis (fontes de calor, armários/ mesas/ gavetas, tomadas/ fichas elétricas). Assim, pode perceber-se facilmente o maior risco associado à sua utilização: os acidentes.

Os andarilhos são responsáveis por um elevado número de admissões aos Serviços de Urgência a nível mundial, e estão inclusive descritas mortes associadas à sua utilização. Em Portugal, um estudo promovido pela Associação para a Segurança Infantil (APSI) e pela Unidade de Vigilância Pediátrica apontava para cerca de 650 casos de crianças atendidas nos hospitais portugueses por acidentes com andarilhos. A estes números, somam-se ainda os casos em que a criança foi levada a outros serviços saúde (hospitais privados, centros de saúde) ou que a criança foi apenas tratada no infantário ou em casa.

Os principais acidentes descritos correspondem a quedas em escadas/desnível com consequente traumatismo craniano (em 60% destes), da boca e dos dentes ou fraturas dos membros. Podem também resultar feridas, queimaduras, afogamentos, intoxicações com produtos químicos ou medicamentos e choques elétricos.


O impacto no desenvolvimento da criança

Ao contrário do que a maioria das pessoas acredita, os andarilhos não permitem estimular o desenvolvimento psicomotor das crianças. Há inclusivamente alguns estudos internacionais que associam a sua utilização a um atraso na idade de aquisição autónoma da marcha.

O desenvolvimento motor das crianças ocorre de uma forma gradual e sequencial tendo em conta o desenvolvimento muscular e o tónus: primeiro adquire controlo da cabeça, depois senta sem apoio, senta com apoio, gatinha ou desloca-se, e só depois se coloca de pé e desloca. Ao colocar uma criança que ainda não adquiriu todas estas etapas numa posição de pé, e ao colocar num dispositivo em que se “arrasta”, vai contribuir para posturas não naturais nos membros inferiores (ver figuras) e um desenvolvimento errado do ato da marcha (apoio do pé, movimento das articulações do joelho e anca), o que leva a um atraso no desenvolvimento da marcha.

 

Posturas incorretas e padrões de marcha anormais adquiridos pelas crianças nos andarilhos. Disponível em https://doi.org/10.1177/2333794X19876849

Contexto internacional/ recomendações

Por todas estas razões, os andarilhos não são recomendados pelas associações internacionais de pediatria, inclusivamente a Associação Americana de Pediatria pediu a sua proibição e comercialização. Em 2004 o Canadá proibiu a sua produção, venda e propaganda pelo elevado risco que representa para a criança, sem benefício demonstrado.

Em Portugal, também não está recomendada a utilização de andarilhos e pode ler-se no Boletim de Saúde Infantil e Juvenil do Programa Nacional de Vigilância de Saúde Infantil da Direção Geral da Saúde: "Os andarilhos provocam muitos acidentes: quedas, entalões, queimaduras, pancadas na cabeça, e não ajudam a andar, pelo contrário, podem atrasar."

Neste sentido, a European Child Safety Alliance recomenda que os pais e cuidadores usem alternativas mais seguras que os andarilhos e incentiva os prestadores de cuidados de saúde a não promoverem a sua utilização.


Alternativas seguras aos andarilhos

Se tiver um andarilho, não utilize! Opte por alternativas mais seguras e que promovam o desenvolvimento psicomotor do seu filho como:

Parques (playgrounds ou playpens): ótimas opções para a criança estar a brincar em segurança, permitindo que aprenda a sentar, gatinhar, colocar-se de pé e até andar.

Tapetes de atividades: para crianças mais pequenas, são semelhantes aos parques embora com necessidade de maior controlo das crianças por parte dos pais, sobretudo a partir do momento em que se conseguem deslocar.

Centros de atividades estáticos: semelhantes a andarilhos, mas sem rodas, habitualmente têm assentos que permitem que a criança possa girar, se inclinar e até saltar, enquanto explora e se distrai com as atividades disponíveis.

Cadeiras altas: as crianças mais velhas habitualmente gostam de se sentar numa cadeira alta como a cadeira de refeição e ficam distraídas a brincar.


Cuide do seu filho, opte pela prevenção!
 


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Marta Mesquita

A Doutora Marta Mesquita é formada em Medicina pela Universidade de Coimbra, sendo especializada em Pediatria Médica. Atualmente, exerce funções no Centro Hospitalar do Baixo Vouga.